Os youtubers influenciam nossos filhos e filhas? | ENTREVISTA PARTE 2/3

Esse é o segundo post sobre como os Youtubers podem influenciar os nossos filhos. O primeiro post entrevistei a psicóloga Jussara Cavalcanti (especialista em atendimento e acolhimento infantil, adolescente e familiar) da Clínica Maia. Nesse, a Maria Veima de Almeida – diretora pedagógica da Escola de Educação Infantil Tarsila do Amaral, responde 12 perguntas realizadas por pais e mães.

Confira depois da imagem:

1. Como ensinar à criança a questionar a qualidade do conteúdo dos vídeos? Se até mesmo adultos são influenciados por Youtubers, como desenvolver um senso crítico nas crianças para poderem distinguir o que é bom ou não?

R: O ideal sempre é que o adulto assista junto para comentar “in loco” e ser pontual em suas intervenções. O senso crítico é oportunizado à criança através de vários tipos de informações, como: livros, filmes, desenhos, músicas, histórias e etc., e com esses meios, a criança começa a adquirir experiência e assim poderá analisar os conteúdos exibidos.

2. Até que idade o bloqueio de canais é viável? Se tem algum que acrescenta de fato algo, quanto tempo eles devem assistir, se o ideal é restringir ou permitir só nos finais de semana.

R: Tudo que é proibido aguça a curiosidade. A criança pode não ter acesso em casa, mas na primeira oportunidade que tiver ela acessará. Isso não quer dizer que as regras não devem ser seguidas, ao contrário, tudo que tiver censura expressa, deve ser respeitado.  O Youtube, via de regra, é liberado, então, os pais devem se informar a respeito do youtuber, conhecer seu conteúdo e fazer as devidas considerações

3. Na escola ela vai ouvir muito falar de youtuber X, youtuber Y, desafio tal etc e, possivelmente, vai procurar se adequar ao que os colegas acompanham. Como lidar com a influência dos colegas? Qual o papel dos pais, qual o papel da escola? E quanto a privacidade da criança? Há limite de controle?

R: A escola é um espaço coletivo, onde ela receberá todo tipo de informação, cabendo a família fortalecer a base, e a escola supervisionar. 

É papel da escola discutir esse assunto com os alunos e orientá-los, nunca dizendo quem é bom ou ruim, mas, sim, o que de fato é relevante em termos de conteúdo.

Entendemos que essa “privacidade” da criança não deve existir, uma vez que ela está construindo conceitos de certo, errado, mentira, verdade, perigo… 

O limite de controle é estabelecido dentro dos critérios de cada família, não existe um manual. Existem famílias que combinam 30 minutos por dia e outras que menos ou mais, aí vai prevalecer sempre o acompanhamento e o bom senso do adulto.

4. Qual é o tempo ideal para deixar o pequeno na frente da telinha? Que tipo de comportamento ou atitude pode influenciar negativamente, porém que não seja notado pelos pais direta e claramente?

R: Não existe uma regra, o que se deve ter é um bom senso, ou seja, a criança deve ter uma rotina adequada para sua faixa etária, com momentos de brincadeiras, descanso, estudo e alimentação.

Acreditamos que não existe comportamento negativo que não apareça quando os pais são atentos. Para pais presentes qualquer mudança de comportamento é rapidamente notada.

5. O diálogo é primordial em qualquer relacionamento, principalmente na criação dos filhos. Como retomar o diálogo quando as crianças já estão influenciadas pelo que acessam e os pais em contrapartida, não tem a segurança/autoridade necessária para se impor, já que passam boa parte do tempo usando aplicativos quando estão com os filhos?

R: Ainda que os pais tenham pouco tempo com os filhos, é necessário organizar esse tempo criando regras que os próprios pais sigam, ou seja, no momento das refeições ninguém usa o celular…

Para retomar o dialogo com as crianças é importante criar estratégia bem distante dos eletrônicos, ou seja, fazer passeios ao ar livre, visitar museus, desenhar, pintar…. 

6. Como o pai pode distinguir o limite entre educação, proteção e bloqueio de aprendizagem?

R: Entendemos que nada pode ser radical. Tudo deve ser supervisionado e orientado. O acesso à internet promove e auxilia na aprendizagem, logo, bloquear a internet não deve ser uma estratégia.  Hoje em dia é possível instalar algumas proteções de acordo com a faixa etária. 

7. O baixo rendimento escolar da criança tem algo relacionado com os vídeos do YouTube, por mais pouco que seja o tempo que a criança assiste?

R: Isso vai depender da rotina da criança. Do tempo que na frente da tela

8. Pergunto isso pois na as crianças hoje em dia estão crescendo e querendo ser YouTubers como profissão, tenho ficado estarrecida com a quantidade de crianças que pensam assim.

R: Para as crianças isso é uma profissão de fácil acesso, elas não têm a real noção de tudo que está por trás. Assim, o desejo de aparecer e ficar “famoso(a)”está intrínseco e parece divertido. Os pais devem desconstruir o glamour da profissão e passar a realidade.

9. A partir de que idade a criança começa a criar senso de responsabilidade, a ponto de valer a pena a tentativa da orientação, sem necessariamente o bloqueio / proibição de acesso… E se isso falha, até que ponto vale um realinhamento antes de partir de fato pra proibição?

R: A criança começa a tomar consciência, no geral, a partir de 8 anos.  O realinhamento é valido sempre. Em todos os casos devemos refazer combinados antes do radicalismo.

10. O que fazer quando a má influência começa a vir dos colegas de escola que continuam assistindo? Quando os colegas entram no assunto do canal X e meus filhos são excluídos por não estarem mais assistindo?

R: Não só no youtube, mas filmes, seriados e até mesmo com drogas, isso vai existir. Muitas vezes a criança ou o adolescente é excluído, e é nesse momento que é super  importante que elas estejam fortalecidas pelos valores da família para que passe dessa fase sem maiores consequências.

11. Quais consequências podem ocorrer para a criança que cresce com essa distância dos pais dentro de casa, que por razões diversas deixam os filhos muito mais tempo na internet do que interagindo com a família?

R: Desastrosas por não receber os valores familiares. Não estarão internalizados como conceitos. Logo a conduta dela pode ser qualquer uma porque ela não terá exemplo e tão pouco limite, que são fundamentais para boas escolhas.

Qual a melhor maneira de explicar e fazer a criança entender a decisão de não poder mais ver o youtuber que ele gosta? Já que pra ele é engraçado e nada mais. 

R: Gostaria que a criança compreendesse e que não fosse tão somente uma imposição. Os pais devem mostrar a criança por meio de conversa que determinado youtuber fala palavrão ou tem brincadeiras inadequadas com os outros e que isso não contribuem em nada, exemplificando claramente que isso não é algo engraçado ou que pode magoar as pessoas.

12. Até que ponto conseguimos distinguir o que é exagero?

R: Quando decidimos as coisas de cima para baixo sem conhecermos e sem ouvirmos a opinião das crianças estamos cometendo um exagero.

Maria Veima de Almeida – diretora pedagógica da Escola de Educação Infantil Tarsila do Amaral

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