Os youtubers influenciam nossos filhos e filhas? | ENTREVISTA PARTE 1/3

Os comentários na fanpage sobre o segundo post sobre o Luccas Neto, me motivaram a prolongar a discussão sobre como os youtubers podem influenciar os nossos filhos. Com ajuda dos meus leitores, formulei 13 perguntas que foram respondidas por psicólogos e pedagogas.

As respostas estão tão completas, que farei três posts sobre o assunto. Esse primeiro post será da psicóloga Jussara Cavalcanti (especialista em atendimento e acolhimento infantil, adolescente e familiar) da Clínica Maia. Confira depois da imagem a entrevista.

1. Como ensinar à criança a questionar a qualidade do conteúdo dos vídeos? Se até mesmo adultos são influenciados por Youtubers, como desenvolver um senso crítico nas crianças para poderem distinguir o que é bom ou não?

O questionamento em relação ao conteúdo dos vídeos está diretamente associado ao desenvolvimento do senso crítico na criança. É justamente este que vai possibilitar tanto a criança como o adolescente uma crítica sobre o que é bom ou não.

Para isto temos que tomar o cuidado para não moldarmos os pensamentos das crianças a partir dos nossos, e sim lhes dar condições para que conheçam e reflitam sobre o mundo. O exemplo dos pais é o princípio desta jornada, e requer uma grande atenção, pois num primeiro momento elas vão imitar seu modo de ser, de agir, de falar e de como respeitam os outros, posteriormente, desenvolverão sua própria personalidade através de questionamentos, da observação de familiares, amigos, professores e até mesmo por aquilo que veem na tv e nas mídias sociais.

Os pais devem incentivar seus filhos a se expressar, envolvendo-os a participar através de sua opinião, buscar sempre responder aos questionamentos feitos por eles, desenvolver resiliência, autoestima, ensinar-lhes a lidar com os “nãos”, promover e estimular leituras e brincadeiras, sendo fundamental o fortalecimento dos vínculos. Desta forma, a criança vai sentir-se segura e com liberdade para expressar seus pensamentos, de forma que possa ser devidamente orientada de acordo com os valores familiares.

2. Até que idade o bloqueio de canais é viável? Se tem algum que acrescenta de fato algo, quanto tempo eles devem assistir, se o ideal é restringir ou permitir só nos finais de semana.

É difícil estabelecer uma idade ideal para o bloqueio de canais, o importante é seguir a faixa indicativa a que se destinam e existir a supervisão dos pais.

Quanto ao tempo de liberação, a Academia Americana de Pediatria orienta que entre 2 e 5 anos este tempo seja de uma hora por dia, e com intervalos de 20 minutos até os 7 anos por conta do desenvolvimento da visão. Importante que uso das telinhas não ocorra próximo ao horário de dormir, pois a exposição à luminosidade pode prejudicar o sono das crianças, por afetar a produção de melatonina, hormônio responsável pelo sono.

Os limites e as regras impostas aos filhos devem refletir o próprio comportamento dos pais, evitando exagerarem no uso de seus aparelhos.

3. Na escola ela vai ouvir muito falar de youtuber X, youtuber Y, desafio tal etc e, possivelmente, vai procurar se adequar ao que os colegas acompanham. Como lidar com a influência dos colegas? Qual o papel dos pais, qual o papel da escola? E quanto a privacidade da criança? Há limite de controle?

Sim, o mundo virtual é uma realidade presente nos dias de hoje. Temos uma geração que já nasce conectada, são conhecidos como nativos digitais, geração Z, milenials, globalists e tantas outras definições. A influência dos colegas sempre existiu e continuará existindo, mas não deve se sobrepor a orientação dos pais. Os pais têm importância moral para a criança e servem de exemplo real, tem força de motivação e convencimento. Um campo aberto de diálogo é fundamental para esclarecer as dúvidas e orientar.

A escola também tem papel importante e junto com os pais devem trabalhar como uma equipe, pois suas funções são complementares, na educação e formação da criança. A escola deve promover orientações sobre o uso adequado da tecnologia e até usá-la para reavivar o processo de educação.

4. Qual é o tempo ideal para deixar o pequeno na frente da telinha? Que tipo de comportamento ou atitude pode influenciar negativamente, porém que não seja notado pelos pais direta e claramente?

O tempo recomendado pela Academia Americana de Pediatria é de uma hora por dia para crianças entre 2 e 5 anos, considerando intervalos de 20 minutos até os 7 anos por conta do desenvolvimento da visão. Comportamentos agressivos, uso de palavrões, ainda que em tom de brincadeira, preconceito, incentivo a conflitos, apologia ao uso de drogas exercem influência negativa na criança que quando comparados às instruções recebidas da família podem gerar confusão, insegurança, dificuldade de convivência, provocando isolamento social, depressão e problemas de autoestima, além de problemas de aprendizagem, decorrentes da dificuldade de concentração.

5. O diálogo é primordial em qualquer relacionamento, principalmente na criação dos filhos. Como retomar o diálogo quando as crianças já estão influenciadas pelo que acessam e os pais em contrapartida, não tem a segurança/autoridade necessária para se impor, já que passam boa parte do tempo usando aplicativos quando estão com os filhos?

Neste caso a ajuda de um profissional adequado pode ajudar os pais a reestabelecer o diálogo, impor limites e estabelecer regras. Porém, é necessário que os pais se mantenham atentos as suas atitudes diante do uso das tecnologias. O ideal é criar uma rotina familiar de consumo consciente de todos os aparelhos, seja celular, computador ou TV.

6. Como retomar esse limite nos casos em que os pais já perderam o controle sobre o que os filhos acessam na internet?

Retomando o diálogo, a confiança e criando um ambiente seguro e favorável.

Certa vez li uma frase que dizia: “O celular do filho não pode ser igual ao do pai. Tem que haver hierarquia”. Concordo com ela, mas o pai tem que assegurar o exemplo.

7. Como o pai pode distinguir o limite entre educação, proteção e bloqueio de aprendizagem?

A internet é grande fonte de informação e conhecimento, mas precisa de utilização adequada para que se torne fonte de aprendizagem e contribua para complementar a educação dos filhos, por isto reforçar a necessidade de acompanhamento dos conteúdos acessados é fundamental.

Se o mundo real já exige dos pais proteção e cuidado com os filhos, na internet estes cuidados precisam e devem ser redobrados. Estabelecer um limite para isto, no entanto não é tarefa fácil, o importante é ter bom senso, estabelecer vínculos afetivos e promover o diálogo. Fazer isto, juntos, será bem mais importante.

8. O baixo rendimento escolar da criança tem algo relacionado com os vídeos do YouTube, por mais pouco que seja o tempo que a criança assiste?

Não se pode estabelecer uma relação direta entre os vídeos e o rendimento escolar sem uma análise detalhada dos conteúdos assistidos, o que se pode afirmar é que quando a criança desenvolve grande interesse pelo computador, e passa horas nele, pode perder o interesse pela escola. Quando os pais usam a tecnologia para distrair a criança, passam a mensagem de que esperar em silêncio, se concentrar, aprender a esperar e se esforçar é algo entediante, criam assim crianças mais impacientes e com baixa capacidade de esforço, o que vai refletir no processo de aprendizagem.

9. Pergunto isso pois na as crianças hoje em dia estão crescendo e querendo ser YouTubers como profissão, tenho ficado estarrecida com a quantidade de crianças que pensam assim.

Sim, a tecnologia veio para ficar e isto é uma realidade, que traz consigo mudanças profundas em no nosso modo de vida.

Hoje, adolescentes e jovens acabam encontrando a popularidade, a fama e o dinheiro, antes mesmo de conquistarem o diploma da universidade.

A tecnologia, associada aos avanços da internet, não deixa dúvidas de que as novas gerações vão encontrar novas formas de ganhar dinheiro, e certamente a profissão de Youtuber estará nas escolhas destes futuros jovens, que nasceram após o “boom” do milênio.

10. A partir de que idade a criança começa a criar senso de responsabilidade, a ponto de valer a pena a tentativa da orientação, sem necessariamente o bloqueio / proibição de acesso… E se isso falha, até que ponto vale um realinhamento antes de partir de fato pra proibição?

Isto pode variar de acordo com o desenvolvimento de cada criança. Uma criança que possui uma boa supervisão, hábitos saudáveis, uma vida organizada, que participa das tarefas da casa desde cedo, e com bons exemplos dos pais, se tornará responsável mais cedo.

Estima-se que entre 12 e 14 anos ela já tenha desenvolvido seu senso crítico, o que lhe ajudará nas suas escolhas, podendo aos poucos ir tendo a liberação de seus acessos, sem que isto signifique que não tenha que ter orientação e supervisão. É preciso sim! Sempre um bom diálogo será a forma mais adequada para o estabelecimento de acordos antes de uma proibição.

11. Quais consequências podem ocorrer para a criança que cresce com essa distância dos pais dentro de casa, que por razões diversas deixam os filhos muito mais tempo na internet do que interagindo com a família?

O primeiro risco é o do isolamento social. Crianças que passam muito tempo nas redes sociais convivem menos com a família e aos poucos vão perdendo o interesse em comer, em sair, em estar com os amigos, passando depois por fortes problemas emocionais, por viverem mais no mundo virtual do que no mundo real.

12. Qual a melhor maneira de explicar e fazer a criança entender a decisão de não poder mais ver o Youtuber que ele gosta? Já que pra ele é engraçado e nada mais. Gostaria que ele compreendesse e que não fosse tão somente uma imposição.

Neste caso é necessário explicar os reais motivos, salientar os valores familiares e mostrar as possíveis perdas que a criança teria nessa escolha.

13. Até que ponto conseguimos distinguir o que é exagero?

Nem sempre é possível distinguir o exagero, mas a criança nos dá sinais nas mudanças de seus comportamentos. Não raro é ouvir pais dizerem: “eu achava que isto era coisa de adolescente”, “ah, seu eu tivesse percebido”, “ele sempre ficava no celular por muito tempo, achava que era normal”, etc.

Precisamos estar atentos aos nossos filhos, nos aproximar, dialogar e fazê-los sentir-se seguros. Promover um ambiente saudável e favorável para seu desenvolvimento. Largar nossos smartphones, computadores e tablets para dar atenção a eles, ou criaremos uma geração sem limites e com sérios problemas emocionais.

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