Paternidade ativa e machismo em All Her Fault

Paternidade ativa e machismo em All Her Fault

Existe um tipo de diálogo que não grita, não quebra pratos e não termina em portas batidas. Ainda assim, ele desmonta uma estrutura inteira. No quinto episódio da série All Her Fault, a conversa entre Jenny Kaminski (interpretada por Dakota Fanning) e Richie Kaminski (interpretado pelo ator Thomas Cocquerel) faz exatamente isso (diálogo está no fim do post). Em poucos minutos, sem vilões óbvios e sem música dramática ao fundo, a série entrega um retrato cru sobre paternidade ativa, machismo no casamento e como a desigualdade se instala de forma educada dentro de relações modernas.

É aquele tipo de cena que não pede replay imediato, mas fica ecoando na cabeça. Especialmente para quem vive, estuda ou cria conteúdo sobre parentalidade.

O conflito não é sobre agenda

À primeira vista, o diálogo parece banal. Jenny avisa que talvez chegue mais tarde em casa. Richie quer saber se será ele quem dará banho no filho. Pronto. Cena comum, cotidiana, quase burocrática.

Mas é justamente aí que mora o problema.

A pergunta não é neutra. Ela carrega um pressuposto claro: dar banho não é automaticamente responsabilidade dele. É algo que precisa ser combinado, negociado e, principalmente, encerrado em algum momento previsível.

Paternidade ativa não funciona no modo plantão. Não é sobre cobrir um turno até alguém voltar. É sobre corresponsabilidade constante.

Segundo dados da ONU Mulheres, mulheres seguem dedicando, em média, o dobro de tempo aos cuidados não remunerados em comparação aos homens, mesmo quando ambos trabalham fora. Esse dado não aparece na série, mas respira dentro do diálogo.

Amar não é o mesmo que participar

Em determinado momento, Richie se defende dizendo que ama o filho. Essa frase aparece como um escudo emocional. E funciona socialmente. Poucas pessoas contestariam um pai que declara amor.

O problema é que amor nunca foi o ponto da discussão.

Participação não se mede por sentimento, mas por presença efetiva. Amar um filho não elimina a necessidade de dividir tarefas, assumir rotinas e abrir mão de privilégios pessoais.

É como dizer que gosta muito do universo Marvel, mas nunca assistiu nada além do primeiro Homem de Ferro. A declaração até existe, mas a prática não acompanha.

Jenny and Richie Kaminski

O tempo livre que nunca é livre

Um dos trechos mais fortes da conversa é quando Jenny expõe algo que muitas mulheres já perceberam, mas poucas conseguem verbalizar sem culpa.

O tempo livre dele é usado para lazer. Basquete, amigos, identidade individual. O tempo livre dela é usado para manter a casa funcionando. Compras, limpeza, comida, roupa.

Esse é um dos pilares do machismo no casamento contemporâneo. Ele não aparece como proibição, mas como distribuição desigual de descanso.

Enquanto um descansa para continuar sendo quem sempre foi, a outra trabalha para que tudo continue existindo.

Pesquisas do IBGE mostram que, no Brasil, mulheres dedicam cerca de 21 horas semanais a tarefas domésticas, enquanto homens dedicam cerca de 11. Isso não é coincidência cultural. É estrutura.

“Eu sou assim” não é argumento neutro

Quando Richie afirma que precisa de espaço e liberdade e que não queria virar outra pessoa ao se tornar pai, ele toca num ponto sensível.

A paternidade, para muitos homens, ainda é vista como um complemento. Algo que entra na vida sem exigir reforma estrutural. Já a maternidade chega como uma reconfiguração total de identidade.

Ela muda horários, corpo, prioridades, percepção social. Ele tenta manter tudo como antes.

Isso não é traço de personalidade. É privilégio.

Na cultura nerd, isso lembra personagens que querem os poderes sem as consequências. Como alguém que deseja ser o Homem-Aranha, mas acha exagero perder o tio Ben. Só que na vida real, não existe arco de personagem sem custo.

Quando a mulher recua para manter a paz

Talvez o momento mais incômodo do diálogo não seja a fala dele, mas a rendição dela. Depois de apontar com precisão a desigualdade, Jenny pede desculpas. Diz que vai se esforçar mais.

Esse é o funcionamento silencioso do sistema.

A pessoa sobrecarregada recua para evitar conflito. A pessoa confortável aceita a promessa vaga de esforço mútuo. Nada muda, mas a tensão diminui.

É um roteiro conhecido. Não só na ficção.

Segundo estudos da socióloga Arlie Hochschild, autora de The Second Shift, mulheres frequentemente assumem a responsabilidade emocional de manter a harmonia do relacionamento, mesmo quando isso significa engolir frustrações legítimas.

A frase que resume tudo

Quando Jenny diz que ela é o padrão e ele é o ajudante, não há ataque. Há diagnóstico.

Ela não se coloca como melhor. Ela se coloca como referência mínima. Ele não é ausente. Ele é auxiliar da própria família.

E essa é uma diferença gigantesca.

Paternidade ativa começa quando o pai deixa de perguntar quando será liberado e passa a entender que cuidar não é um favor temporário. É parte do contrato invisível de criar alguém.

Por que esse diálogo importa

All Her Fault acerta ao não transformar Richie em um vilão unidimensional. Ele não é cruel, não é agressivo e não é caricato. Ele é comum. E isso é o que torna tudo mais desconfortável.

O machismo retratado ali não vem em forma de ordem, mas de expectativa. Não vem com gritos, mas com normalização. Não aparece como opressão explícita, mas como desequilíbrio aceito.

Para quem fala sobre paternidade ativa, essa cena é quase um estudo de caso. Para quem vive relações heteronormativas com filhos, é um espelho incômodo. Para quem consome cultura pop com atenção, é um lembrete de que boas histórias também educam.

Segue abaixo o diálogo completo:

Jenny: não sei que horas estarei em casa. Marissa tem uma entrevista com a Real Insight às 20h, e ela queria que eu ajudasse a repassar umas perguntas.

Richie: Bem, você vai ficar para a entrevista ou vai embora antes?

Jenny: Não sei. Por que é tão importante?

Richie: Só quero saber se vai dar banho no Jacob ou se será tarefa minha.

Jenny: O que? Por que quer tanto se livar? Você sempre quer saber quando estará liberado.

Richie: Que coisa horrível de se dizer, Jen. Sabe que amo meu filho.

Jenny: Sempre que fica com o Jacob, quer saber quando vai acabar. Já notou que não pergunto isso?

Richie: Está bem, desculpe. Você é melhor que eu.

Jenny: Não sou melhor, sou o padrão e você é o ajudante.

Richie: É assim que funciona. Quando um precisa de folga, o outro deve…

Jenny: Mas não é igual. Nunca é igual. Sua folga é para fazer suas coisas, ser você mesmo, jogar basquete e ver seus amigos, e meu tempo livre é para fazer compras, limpar a casa, cozinhar, lavar roupa, então eu não tenho tempo livre.

Richie: Não sei o que quer que eu diga ou faça. Parece que você sempre quer mais. Nunca é o bastante. Jen, eu sou assim, eu preciso de espaço e liberdade. Era isso que você amava em mim. Eu sou independente. Eu deveria poder ser eu mesmo, mesmo tendo um filho, eu nao queria virar uma nova pessoa. 

Jenny: Tem razão. Eu disse à Marissa que viria antes de avisar a você e não foi justo. Geralmente o sábado é o dia em que você faz suas coisas. Casamentos dão trabalho e exigem esforço. Vou me esforçar mais de agora em diante. 

Richie: Está bem. Eu também.

Jenny: Eu amo você

Richie: Eu também amo você.